Motores da Ford

 

 A partir da criação, em Detroit, de seu primeiro veículo em 1896, o Ford Quadriciclo, que tinha motor de dois cilindros e apenas quatro cavalos-vapor de potência (sustentado em cima de rodas de bicicleta), com velocidade máxima de 28 km/h, Henry Ford começou a desenvolver pesquisas que culminariam, ao longo do século XX, no advento e aperfeiçoamento dos famosos motores da companhia.

Naquela época, ele experimentou motores com as mais diversas e inusitadas configurações, tal como um X8 (oito cilindros em X), um I5 e um V10 de 308 c.i., dois eixos e quatro cilindros. Coisas fantásticas.

 Além do Quadriciclo, Henry aventurou-se nas corridas de carro, em 1902 e 1903 (ano de fundação da empresa), com o lendário Ford 999, que trazia, nas duas versões, motores de 26 e de 75 cavalos, respectivamente, com os quais estabeleceu recordes de velocidade da milha terrestre, na época.

 

Henry Ford já desenvolvia motores antes da criação da Companhia

Motor V-10

 

E antes da invenção do Ford Modelo T, o “Carro do Século XX”, em 1908, Ford criou oito modelos de carros, cujo resultado final seria justamente a fabricação em série do T. Em 1904, apresentou o Modelo B, primeiro carro da companhia a utilizar o layout para o motor frontal, que tinha 24 cavalos e quatro cilindros posicionados à frente com um radiador convencional atrás.

Já o Modelo T, que vendeu 15 milhões de unidades em 19 anos de fabricação, tinha motor de quatro cilindros com válvulas laterais, 20 cavalos de potência e 55 km/h de velocidade máxima e 2,9 litros.

  Depois do Modelo T, o Modelo A, mais aperfeiçoado e vendido entre 1927 e 1931, trazia melhorias significativas em relação ao anterior, como motor de quatro cilindros de 40 cavalos-vapor, velocidade máxima de 100 km/h e 8,5 km/l de consumo de combustível.

 

Motor V-12

Réplica (madeira e arame) do primeiro motor produzido por Henry Ford, no Natal de 1893; com a ajuda da esposa Clara, ele testou esse motor de dois cilindros (feito de peças rudimentares) na pia da cozinha da casa onde morou na Avenida Bagley, em Detroit

 

Mas a grande inovação, sem dúvida, aconteceu no dia 9 de março de 1932, com a apresentação ao mundo do revolucionário motor V8, que custava, naquela época, apenas 10 dólares. Os franceses já faziam experiências com este tipo de motor, em 1906, desenvolvendo um bloco de oito cilindros (montados em esquemas multiblocos, ou seja, eram unidos dois blocos de quatro cilindros para se chegar a um V8).

Mas a Ford conseguira, pela primeira vez na história do automobilismo de grande série, fundir o bloco de oito cilindros em V numa peça única. Esse motor tinha somente três suportes de virabrequim e a sua fabricação alcançou tamanho nível de simplicidade e economia que, em pouco anos, o Ford V8 se tornou o motor mais vendido do mundo. Mesmo com sua potência de 65 cv a 3.400 rpm, não ser uma das mais elevadas, na época, levava os carros a uma velocidade de quase de 120 Km/h.

 

Em 1902, Ford produziu esses modelos de carros - o Rekord (esq) e o 999 - com motores que o ajudaram a quebrar recordes da milha terrestre nos EUA

Motor do Ford Modelo T, de quatro cilindros com válvulas laterais

 

Sucessivamente a Ford lançou duas outras versões, de 2.220 cm³ (denominado Model 60) e de 3620 cm³ (Model 85), sempre com oito cilindros em "V".

 

Vantagens do V8

O motor Ford V8 foi também construído na Inglaterra, Alemanha e na França. Nesta última contou com a colaboração de Emile Mathis. Após a Segunda Guerra, a Ford assumiu diretamente o controle da produção na França, e seu primeiro carro foi o Vedette, equipado com o Model 60 (2.220 cm³) usado na década de 30 nos Matford.

Em 1952 ao Vedette somou-se um cupê bem aerodinâmico, denominado de Comete, usando o mesmo V8 só que com cilindrada aumentada para 2300 cm³ e 86 cv.

Em 1954 foi oferecida a opção de um novo V8, com 3900 cm³ mas na mesma e antiquada concepção de seus antecessores (usando válvulas de admissão e descarga no bloco), ao mesmo tempo em que a Ford era comprada pela Simca – na França. Anos depois o velho Vedette vinha ao Brasil com a Marca Simca, enquanto na França era equipado com uma nova versão do V8, agora com válvulas no cabeçote e 112 cv.

Mas isso só prolongou sua vida até 1961, quando saiu definitivamente de linha, passando a ser fabricado apenas aqui no Brasil, e equipando os modelos Chambord, Tufão, Esplanada e outros da marca Simca.

Em 1932, Mr. Ford apresenta ao mundo um motor V-8 mais simples e eficiente, que o tornam o mais vendido do mundo

Motor V-8 do famoso Ford Deuce Coupe 1932, carro que se tornou ícone daquela geração na América

Motor de um Ford 1934 preparado para corridas hot rod

O esquema em "V" se difundiu quando projetistas e construtores se convenceram de duas vantagens evidentes na comparação com o motor de cilindros em linha. Essas vantagens dizem respeito ao peso e comprimento do motor, e com razão: montando os cilindros em duas fileiras (em lugar de uma única), o comprimento total do motor é reduzido quase à metade.

Isso traz como conseqüência uma redução do peso do motor, além de que o virabrequim é mais curto e portanto, nas mesmas rotações, acaba sendo mais resistente e sofre menos vibrações! Mas o V8 não é um motor de funcionamento suave? É, e isso se deve à inegável vantagem do melhor balanceamento dinâmico que se consegue do motor, pois a configuração em V corresponde, na prática, a dois motores postos lado a lado, o que permite compensar os esforços provocados pelo movimento alternado dos pistões.

Daí o funcionamento silencioso, de baixas vibrações e "liso". O ronco gostoso do V8 vem justamente daí. Por isso, muitos insistem em dizer que o "V8" é o motor perfeito. Não chega a tanto, mas que é muito bom, isso ninguém pode negar.

O motor V-8 de Ford ficou tão popular e admirado nos EUA, nos anos 30, que até inimigos do Estado utilizaram-no de forma perigosa; prova disso é a cópia de uma carta escrita por Clyde Barrow, que, ao lado da também bandida Bonnie Parker, elogiava a performance do motor do Ford 1934 usado por eles em fugas da polícia, após assaltarem bancos

O casal Bonnie e Clyde, ao lado do Ford 1934 (mini de resina) de motor V-8, usado para assaltos a bancos nos EUA, nos anos 30; o casal foi morto pela polícia em maio de 1934

 

Em 1963 era lançada uma das mais bem sucedidas famílias de V8 da história, a Small Block da FORD. Com um design moderno e compacto, resultou num dos menores blocos já fabricados pela Ford. Logo tinham "baixo" peso, se compararmos com os V8 da época. Isto contribuiu em muito para a sua produção em larga escala. Lógico então, fizeram e fazem a alegrias dos preparadores de motor (V8 é claro). Sorte nossa então, que podemos vê-los desfilando em nossas ruas e roncando alto nas pistas de corrida. O primeiro motor da família Small Block foi o 221, que prestou serviço às belas e requintadas curvas do Ford Fairlaine.

Um pouco mais tarde, este bloco foi expandido para 260, 289, 302, 427".

De 1963 até 1968 foi o 289 que nos deu o ar de sua graça. Presenteava-nos com 271hp a 6000 rpm. O seu virabrequim era de ferro fundido nodular, que é mais resistente que o ferro fundido comum, o cinzento. Suas bielas eram reforçadas com parafusos 3/8", tuchos mecânicos, etc...

Se você lembra dos Mustang GT 350, vai de agora em diante lembrar-se dos 289 e 289 Hi-Performance. Só mais um detalhe: o 289 Hi-Performance, dentro do GT 350 rendia 306hp, sendo que sua potência original de fábrica fica na casa dos 289hp a 6000 rpm.

Motor Small Block, da Ford

Réplica do motor 427 SOHC

O SOHC 427 era usado em automóveis como o Ford Thunderbolt 1964 (mini em escala 1:24)

Este foi um dos motores preferidos pela Ford para representá-la nas pistas de corrida. Quem andava com ele? Ora, uns tal de Cobra e o desconhecido do Mustang. Mas em 1968, o 289 teve o curso do virabrequim aumentado em 1/8" dando início então ao nosso famoso e inebriante 302! E como não poderia deixar de ser, de cara já saiu uma versão apimentada, o Tunnel Port 302. Seus cabeçotes eram uma obra de arte, respiravam mais do que atleta de maratona. A taxa de compressão era de 12,5:1, a gasolina!

Depois veio o Boss 302, e o que já era bom ficou ainda melhor! Imagine se ele não foi direto para as pistas. Em termos genealógicos, o BOSS 302 era uma evolução do 289 Hi-Performance. Suas principais virtudes estavam nos 4 parafusos de fixação do mancal do virabrequim (que era de aço forjado), parafusos 7/16" usado nas bielas dos cabeçotes 4V! Cabeçotes que também equipavam o Cleveland 351 (da família de motores Cleveland).

Falecido em maio de 2012, o lendário piloto e construtor de carros Carrol Shelby contribuiu para o desenvolvimento de famosos motores nos não menos famosos Fords Mustang Shelby e AC Cobra

Mini do motor do Ford Mustang Shelby KR 2010

Mini do motor Ford Cosworth, que foi campeoníssimo na Fórmula 1 nos anos 70 e 80

 

O BOSS 302 só foi fabricado em 1969 e 70. Gerava 290hp a 5800 rpm, mas é claro que o pessoal adorava vê-lo com 400cv no mínimo. Nos dias de hoje, o 302 não se chama mais 302 e sim 5.0 HO (High Output). Este nome lhe foi dado em 1979 e ano a ano vem sendo aperfeiçoado para atender as normas anti-poluição.

Para fechar a família Small Block, a FORD resolveu aumentar em mais meia polegada o curso do virabrequim do 302. Surgiu então o Windsor 351, que foi produzido de 1969 até 1996. A semelhança externa desta família é muito grande, apenas alguns detalhes externos podem ajudar a identificarmos com precisão quem é quem.

O grande desafio de Henry Ford

O bloco do motor foi o maior desafio de Henry Ford durante o desenvolvimento do projeto. Os motores de oito cilindros eram, até então, pesados e caros de fabricar. A opção mais óbvia para um desempenho melhor eram um seis cilindros, mas Henry não gostava dessa opção, já vendida pela concorrente Chevrolet. Ele fazia questão de que o bloco fosse uma peça única para facilitar a produção em massa. Só que não havia tecnologia para isso na época.

Motor Zetec-rocam, que equipa modelos como Ford Fiesta, Ka e Courier, atingiram em 2012 o total de três milhões de unidades produzidas em Taubaté, SP

 

Ford e um grupo de engenheiros reuniram-se no Fort Myers, antigo laboratório de Thomas Edison, para desenvolver o bloco em sigilo.

Em 9 de março de 1932 ficava pronto o primeiro exemplar do V8 da Ford, conhecido como Flathead (cabeçote plano), por ter válvulas laterais dentro do V formado pelas bancadas de cilindros. O comando ficava acima do virabrequim, como nos motores modernos com comando no bloco. També estavam no V os coletores de admissão, mas os gases de escapamento precisavam passar entre os cilindros para chegar ao respectivo coletor, o que transferia calor ao bloco e exigia refrigeração mais eficiente.

O Ford 32, que vinha com câmbio de três marchas, foi imortalizado pelos hot rods na Califórnia, a partir da Segunda Guerra Mundial, e representaram os primórdios de uma febre de personalização e preparação de carros. Esse modelo teve uma importância maior: definiu o motor do típico carro americano, padronizado no pós-guerra como grande, macio e dotado de câmbio automático.

 

 

Motor Zetec-Rocam

Melhor Torque, melhor Potência. Melhor sair da frente." Em 1999, quando as coisas não iam nada bem para a Ford, uma estratégia bem sucedida fez com que a empresa voltasse a respirar no mercado nacional. Trazendo o Fiesta como carro de entrada, na versão três portas e o atualizando com o modelo mundial, a Ford melhorou o seu número mensal de vendas.

A nova motorização é um capítulo que merece uma nota a parte.

Substituindo os antigos motores que equipavam o Fiesta e o Ka (os antiquados Endura 1.0 e 1.3 e o eficiente Zetec S 1.4 16v) pelo Zetec Rocam 1.0L e 1.6L, a Ford fez com que a sua linha de automóveis tivesse os motores mais modernos do país.

 Isso gerou comentários positivos na imprensa especializada e trouxe a Ford de volta à cabeça dos consumidores.

Os motores Zetec Rocam se caracterizam por sua durabilidade e performance. A grande vedete deste motor é o comando de válvulas, com acionamento suportado por rolamentos, reduzindo profundamente o atrito no mesmo. A curva de torque, tanto no 1.6L quanto no 1.0L é muito boa, quase 100% plana. Atingindo seu pico em rotações muito baixas, o que proporciona um grande prazer ao dirigir.

Os motores são produzidos na planta de Taubaté e são exportados para vários países. 

Confira aqui as principais características:

Torque (força): superior aos veículos da concorrência já em baixa rotação. Domina nas ultrapassagens, retomadas de velocidade e subidas, com partidas muito mais rápidas.

Dirigibilidade: os veículos e pick-ups da Ford sempre foram reconhecidos pelo excelente prazer em dirigir que proporciona. Agora, com os novos motores Zetec RoCam, sua dirigibilidade ficou ainda mais acentuada.

Economia de combustível: os novos motores Zetec RoCam 1.0L e 1.6L têm o menor consumo de combustível em sua categoria. O resultado: benefício para o seu dia-a-dia.

Baixo custo de manutenção: com a utilização de um óleo mineral de baixo atrito, a troca de óleo fica mais espaçada, a cada 20.000Km* rodados. As velas devem ser substituídas somente a cada 40 mil km.

Baixo nível de ruído: o novo motor, com toda esta potência, manteve a mesma característica e continua a oferecer muito prazer e conforto para quem o dirige.

Zetec Rocam 1.0L 8 válvulas:
Combustível - gasolina
Potência líquida máxima - 65 cv @ 5.750 rpm
Torque líquido máximo - 8,9 mkgf @ 2.750 rpm
Sistema de alimentação - Injeção eletrônica multiponto seqüencial, com módulo de gerenciamento eletrônico do motor.

Zetec Rocam 1.6L 8 válvulas:
Combustível - Gasolina
Potência líquida máxima - 95 cv @ 5.500 rpm
Torque líquido máximo - 14,0 mkgf @ 2.250 rpm
Sistema de alimentação - Injeção eletrônica multiponto seqüencial, com módulo de gerenciamento eletrônico do motor EEC-V

Motor V8 427

Foi nos motores FE (abreviatura de Edsel Ford) que a Ford mais desenvolveu suas teorias sobre desenho de cabeçotes e sua influência no rendimento do motor. Houve versões bem interessantes dos 427, como os Tunnel Port, para muitos o melhor desenho de cabeçotes, com câmaras de combustão em cunha e válvulas alinhadas.

Havia uma versão destinada à Nascar e a outras provas de circuito. Tinha dois comandos de válvulas, um em cada cabeçote, e alavancas roletadas, como nos atuais motores com tecnologia Rocam.

A coqueluche do momento na Ford é o revolucionário motor ecoboost de quatro cilindros, que equipa carros em outros continentes

 

O lendário motor Ford 427 SOHC (um dos tipos desta categoria) foi cunhado em Daytona pela Chrysler Hemi, em 1964. Para competir nessa corrida, a Ford desenvolveu uma versão de comando de válvula de alta performance, derivado do bloco FE . O motor, que equipou o eterno rei das pistas de Le Mans, nos anos 60 – o Ford FT 40 -, era conhecido como o Cammer.

A adição de uma câmara hemisférica e de comandos de válvulas transformou o 427 numa poderosa usina de força. Muitos motores Cammers foram utilizados em Mustangs, em corridas de “arrancada” experimentais.

As especificações do 427 SOHC eram: 427 polegadas cúbicas; válvulas em 90 graus V8; 657 a 750 cavalos de potência e torque de 575 libras; válvulas de aço; câmaras de combustão hemisféricas.

O V8 427 eram divididos em cinco tipos: low riser (baixo ascendente, introduzido entre 1963 e 1964), medium riser (médio ascendente – entre 1965 e 1967), high riser (alto ascendente, produzido em 1964), tunnel port (disponível em 1967) e SOHC.

 

Um pouco de história

Em 1961, a Ford havia desenvolvido novos motores e ainda não tinha onde usá-los. Shelby então equipou os carros com os Fords de 260 e 289 polegadas cúbicas (4,2 e 4,7 litros, na ordem). Nascia assim o Cobra. O resultado foi excelente: o carro se tornou o mais rápido da época e, em 1965, a equipe de Shelby venceu o Mundial de GT da FIA, sendo a única empresa americana a conseguir tal feito durante décadas.

Não satisfeito, Shelby resolveu aumentar ainda mais a potência do carro e espremeu um imenso Ford V8 de 427 pol3 (7,0 litros) no Cobra. O carro gerava 425 cv  a 6.000 rpm e ficou logo conhecido por sua potência. Em 1967, dirigido pelo jornalista britânico John Bolster, registrou velocidade máxima de 265 km/h e aceleração de 0 a 96 km/h em apenas 4,2 segundos. Um fenômeno.

 

Fontes: Textos de José Luís Cantanhêde e Portais Maverick e Best Cars