A linha de montagem do Ford Modelo T

 

Desde a inauguração da fábrica de Highland Park, a segunda fábrica da Companhia, em Detroit, em meados dos anos 10, Henry Ford vinha sondando formas de usar aquelas instalações para, enfim, produzir o Modelo T em massa.  

Ford e seu assistente dinamarquês Charles Sorensen já haviam feito testes para conferir a melhor maneira de alcançar essa meta. Num deles, bancadas eram usadas como suportes móveis para empurrar os carros a diferentes pontos da fábrica onde as peças eram colocadas. Mais tarde, outra tentativa fazia com que os operários da Ford movessem as peças pela linha de produção sobre esteiras inclinadas, o que não evitava que a maior parte da montagem continuasse a ser feita à mão. 

 

Réplica (madeira, arame, acrílico, resina) da linha de montagem do Ford Modelo T, na fábrica de Highland Park, em Detroit, em 1913

Aqui, uma foto original da época, com detalhes finais da linha de produção do T (pátio externo da fábrica); Highland Park, conhecida como Palácio de Vidro, foi a "casa do Modelo T"

 

Em abril de 1913, um engenheiro de produção, do setor que montava o magneto do motor, dividiu o processo em 29 etapas. Cada funcionário instalaria apenas um componente antes de empurrar a peça para o colega seguinte. Uma peça que antes levava 20 minutos para ficar pronta tomava agora 13 minutos. Outras alterações no processo de montagem reduziram esse tempo para cinco minutos. Era hora de estender tal método à fabricação do motor e outras partes do veículo. 

Uma linha de montagem simples teve sua instalação encerrada em Highland Park no dia 7 de outubro de 1913. O chassi era puxado lentamente pelo chão da fábrica por meio de uma corda e um sarilho. As peças e 140 operário ficavam em seus postos estipulados, em intervalos distintos, ao longo de um trajeto de 45 metros. Conforme o carro era arrastado, os componentes eram instalados. Ao final da montagem do primeiro Modelo T nesse método, veio a surpresa: das antigas 12 horas e meia, o processo levou cinco horas e 50 minutos. Nascia a linha de montagem para automóveis. 

 

Henry Ford não inventou o automóvel; ao contrário - fez algo mais importante: implementou a linha de produção dos veículos

No total, os operários construíam uma unidade do T em 29 etapas; a colocação do motor vinha na décima fase

Das 12 horas de produção do T, o tempo foi reduzido para 90 minutos anos mais tarde

 

Logo em seguida, a corda foi trocada por um sistema de transporte sem fim. Movido a energia elétrica, o sistema ficava ao nível do chão e acomodava o chassi de modo a deixar espaço para que os operários trabalhassem nele sem apertos. Alguns realizavam apenas uma tarefa, outros se encarregavam de várias. Se um funcionário colocava um parafuso, a montagem da porca ficava a cargo do seguinte, que não era encarregado de apertá-la. Os suportes de paralama eram os primeiros itens fixados ao chassi. O motor vinha só na décima etapa. 

A eficiência na montagem tornou-se uma meta recorrente para Henry Ford. “Poupe 10 passos por dia de cada um dos 12 mil empregados e você economizará 80 quilômetros de movimento inútil e energia mal despendida”, pregava. Para tanto, com o tempo, a linha de montagem seria elevada até a cintura para reduzir a inclinação dos metalúrgicos.  

Réplica de um Ford Modelo T Touring 1914 (escala 1:18); Ford costumava dizer que "o cliente poderia ter o carro na cor que quisesse, desde que fosse preto"; descobriu-se o motivo disso: a cor preta era mais fácil e rápida de secar que as outras; o Ford Modelo T foi eleito em 1999, por uma comissão de jornalistas especializados no setor automotivo de todo o mundo, como o Carro do Século XX

 

Foi só em 1914 que surgiu a decisão tornada famosa por outra declaração atribuída ao empresário americano: “O cliente pode escolher a cor que desejar, desde que seja preta”.  

Uma opção pela discrição e o conservadorismo da cor? Que nada! Henry Ford preferiu limitar o catálogo ao preto por ser esta a tinta de secagem mais rápida da época, o que aceleraria a produção. Ao anunciar em 5 de janeiro de 1914 o salário de cinco dólares diários a seus operários – mais que o dobro de antes -, Ford causou outra revolução, desta vez no mercado de trabalho. 

Revisões constantes do processo produtivo fizeram o tempo de montagem cair para 93 minutos. Se as vendas ultrapassassem 300 mil carros, cada comprador receberiam um reembolso. Foram 308.162 exemplares, mais que todos os outros fabricantes americanos juntos. Promessa cumprida: cada cliente recebeu 50 dólares de volta. 

Viva a revolução fordista!

 

Curiosidades sobre a linha de montagem do Ford T

1913 Com a linha de montagem, o tempo caiu de 12h30min para 5h50min. Em 1914, foi a 1h33min.

1908 O básico Runabout custava 850 dólares. Em 1925, caiu a 260.

1920 A Ford produzia uma unidade do Modelo T por minuto.

1921 57% da produção mundial (ou 61,4% dos EUA) era de Ford T.

1925 Foram vendidos 24 250 deles no Brasil, 60% do mercado nacional – recorde de vendas até 1969, quando o Corcel passou.

1972 Nesse ano, seu recorde mundial de produção (15 484 781 carros) é superado pelo Fusca.

2003 Seis T 1914 foram feitos a mão para o 100º ano da Ford.

 

Fonte: Portal Best Cars - Carros do passado

 

*Obs.: No início do texto, o pequeno quadro (clique na imagem) é uma foto do filme "Tempos Modernos", de 1936, com o saudoso Charlie Chaplin. Na fita, o comediante faz uma crítica bem-humorada ao sistema de produção de automóveis implantado por Henry Ford, no início dos anos 10